A expansão do sistema de nomes de domínio deixou de ser um experimento periférico e passou a representar um fenômeno estrutural da economia digital. Desde a rodada de 2012, a ICANN, entidade responsável pela designação de domínios da internet, recebeu 1.930 pedidos de novos gTLDs e delegou mais de 1.200 extensões à raiz da Internet.
Como resultado desse movimento, o crescimento desse mercado tem sido constante. Apenas no primeiro trimestre de 2025, os novos gTLDs já somavam aproximadamente 37,8 milhões de registros, o que representa um crescimento anual de 13,5%.
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A nova oportunidade para empresas e grupos econômicos
Diante dessa crescente demanda por novas extensões de domínio, a ICANN prepara uma nova rodada de solicitações de gTLDs. A janela de inscrição está prevista para abril de 2026, com duração estimada entre 12 e 15 semanas.
Esse processo, no entanto, não é simples. Ele envolve uma série de aspectos regulatórios e técnicos. Além disso, há preocupações importantes relacionadas à segurança e estabilidade da infraestrutura da internet. Outro ponto central envolve a proteção de direitos de propriedade intelectual de terceiros, que precisa ser garantida durante todo o processo.
Nesse contexto, a abertura dessa nova rodada representa uma oportunidade estratégica para empresas e grandes grupos econômicos. Afinal, ela permite transformar o próprio nome corporativo em parte da infraestrutura da internet.
Por outro lado, essa decisão também envolve uma série de desafios. Entre eles estão questões relacionadas à propriedade intelectual, governança de dados, segurança da informação e investimentos significativos, que podem chegar a centenas de milhares de dólares por extensão registrada.
A introdução dos Brand TLDs
Um dos pontos mais relevantes do programa atual é a presença mais explícita dos chamados Brand TLDs.
Essas extensões permitem que empresas solicitem um domínio de topo exclusivo para sua própria marca, como por exemplo .empresa, .marca ou .nomecorporativo.
Com isso, a nova rodada recoloca o direito marcário no centro das discussões sobre governança da internet. De um lado, existe a liberdade de iniciativa para registrar novas extensões. Por outro, há a necessidade de proteger marcas contra riscos de confusão, diluição e uso parasitário.
Assim, o desafio passa a ser equilibrar inovação digital com proteção jurídica adequada.

Mecanismos de proteção para marcas
Para lidar com esses riscos, a ICANN estruturou mecanismos específicos de proteção de marcas.
O principal deles é a Trademark Clearinghouse (TMCH), um banco de dados centralizado que autentica informações sobre marcas registradas. Depois da validação, esses dados são disponibilizados para registries e registrars.
É importante destacar que a TMCH não cria novos direitos de propriedade intelectual. Na prática, ela funciona como uma infraestrutura de reforço aos direitos já existentes, conectando registros oficiais de marcas a mecanismos de proteção no sistema de domínios.
Entre os instrumentos associados à TMCH, destacam-se dois serviços principais:
- Sunrise Period
- Trademark Claims Service
O procedimento para registro de um GTLD
O processo de proteção de marcas dentro do sistema de domínios funciona em três etapas principais.
Registro na TMCH
Primeiramente, o titular registra sua marca na Trademark Clearinghouse. Esse cadastro passa por um processo de verificação de autenticidade e análise do escopo de proteção da marca.
Sunrise Period
Depois disso, ocorre o chamado Sunrise Period. Nesse período, titulares de marcas registradas têm direito de preferência para registrar o nome de domínio correspondente à sua marca em cada novo GTLD. Esse período ocorre pelo menos 30 dias antes da abertura do registro ao público em geral.
Trademark Claims Service
Por fim, existe o Trademark Claims Service. Durante os primeiros 60 dias de disponibilidade pública do novo TLD, o sistema alerta potenciais registrantes caso o domínio desejado seja idêntico a uma marca cadastrada na TMCH.
Além disso, caso o registro seja realizado mesmo após o aviso, o titular da marca recebe uma notificação automática informando a criação do domínio.
Exigências para candidatura a um gTLD
A candidatura a um GTLD na rodada de 2026 exige o cumprimento de diversos requisitos formais e técnicos.
Primeiramente, o pedido deve ser apresentado por uma pessoa jurídica, que precisa comprovar sua existência legal e poderes de representação.
Além disso, o candidato deve realizar o registro no sistema TAMS (TLD Application Management System) e efetuar o pagamento da taxa integral de avaliação.
Atualmente, essa taxa é de 227 mil dólares por aplicação.
Outro requisito importante é a apresentação de documentação detalhada, incluindo respostas sobre:
- modelo de negócio do TLD
- política de registro de domínios
- medidas de compliance
- estratégias de mitigação de abusos
- arquitetura de segurança da operação
Complexidade do processo e exigências técnicas
A candidatura a um GTLD exige mais do que apenas documentação administrativa. As organizações também precisam demonstrar capacidade técnica e operacional para administrar um registro de domínios em escala global.
Entre os principais requisitos técnicos avaliados estão:
Infraestrutura DNS
A infraestrutura deve possuir arquitetura redundante, presença em múltiplas localidades geográficas, suporte a DNSSEC e mecanismos robustos de proteção contra ataques DDoS.
Segurança operacional
Também é necessário demonstrar a existência de políticas de segurança bem definidas. Isso inclui gestão de chaves criptográficas, controle de acessos privilegiados, monitoramento contínuo de logs, resposta estruturada a incidentes e planos de continuidade de negócios.
Mitigação de abusos
Outro ponto fundamental é a existência de processos para lidar com o uso malicioso do TLD. Isso inclui situações como:
- phishing
- distribuição de malware
- operação de botnets
- violação de direitos de propriedade intelectual
Considerações legais e de segurança
Além das exigências técnicas, o processo também envolve um conjunto de responsabilidades legais e regulatórias.
A operação de um gTLD implica o tratamento de dados de registrantes e usuários. Por isso, pode caracterizar tratamento de dados pessoais, especialmente sob a ótica da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Consequentemente, as organizações precisam implementar políticas internas de governança de dados e segurança cibernética compatíveis com o ambiente regulatório atual.
Esse cuidado se torna ainda mais relevante diante do crescimento das normas internacionais relacionadas à proteção de dados e à cibersegurança.
Análise integrada para a decisão de registro
A nova rodada da ICANN em 2026 oferece uma oportunidade estratégica única para empresas que desejam estruturar sua presença digital a partir do nível mais alto da arquitetura da internet.
Registrar um “.brand” ou outro tipo de gTLD personalizado pode fortalecer a identidade digital de uma organização. No entanto, essa decisão exige planejamento cuidadoso.
Por esse motivo, a escolha de participar da nova rodada deve resultar de uma análise integrada. Essa análise precisa considerar não apenas os custos operacionais, mas também aspectos relacionados a:
- propriedade intelectual
- segurança da informação
- governança de dados
- estratégia digital corporativa
Somente com essa abordagem estratégica é possível avaliar corretamente se a criação de um gTLD próprio representa uma vantagem competitiva real para a organização.